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Descobrindo a Terceira Idade – Parte 2 de 4 – A função social da fotografia
No segundo artigo dessa série, apresento à vocês algumas reflexões em torno da função social da fotografia, retomando a potencialidade dessa arte na terceira idade. Hoje vou falar sobre como começar um projeto. Desde idéias, público alvo, onde encontrar apoio. Enfim, um passo a passo para você que tem muita vontade de compartilhar e não sabe por onde começar.
Para quem não leu a primeira parte da série recomendo que leia antes de prosseguir.
Conheça o outro
A primeira coisa a se pensar é: o que é função social? É pensar em como nós, cidadãos, podemos contribuir com o bem estar do outro. Nós pouco pensamos sobre isso, e pouco exercemos interferências na vida do próximo por um motivo simples: não sabemos ao menos quem eles são. Nos fechamos em nosso próprio mundo, e nos abrimos somente para nossos amigos e família. O outro é desconhecido, não sabemos quem são e do que precisam. Ao se pensar em desenvolver projetos com grupos específicos, saia do seu estado de conforto e perceba o outro.
Admire o outro
Perceber o outro não basta. É necessário que você admire e goste daquele público com o qual você pensa em trabalhar, para que qualquer idéia seja desenvolvida com verdade e amor. Se você não for sincero em suas escolhas, pare de ler aqui esse artigo. Você trabalhará com pessoas, se envolverá com elas e desenvolverá um laço emocional de extrema responsabilidade. Como lecionar para crianças se você não tem paciência? Como trabalhar com um projeto itinerante se você é avesso as intempéries de uma viagem? Ao começar um trabalho com um grupo específico, laços afetivos sem precedentes irão se formar. Acabar com tudo isso, de uma hora para outra só porque você descobriu que “não era bem isso que eu estava procurando”, não é a melhor postura a ser tomada.
Procure órgãos de apoio
Começar um projeto sozinho, do zero, é bem difícil. Para isso, existem as Secretarias de Cultura de cada município, para viabilizar essa comunicação. Lá, eles sabem de todos os centros culturais da cidade, ONGs, projetos autônomos.
A primeira coisa a se fazer é: marque uma reunião com o secretário de cultura do seu município. Converse sobre suas idéias, seu projeto, público alvo, viabilidade. Ele saberá melhor do que qualquer um sobre todas essas questões.
Visite outros centros culturais, instituições de ensino, universidades. Para quem mora no estado de São Paulo, um site legal para ser visitado é o www.oficinasculturais.com.br. Nesse site é possível contatar as oficinas culturais de cada região.
Há também a iniciativa privada, que adota e financia vários projetos sociais para desenvolver a “Responsabilidade Social” exigida por alguns estatutos. Verifique junto a Secretaria de Cultura quais empresas trabalham diante essa perspectiva. No meu caso, tive a sorte de encontrar um projeto já desenvolvido para o público que procurava.
Fora das vias comuns, há também as iniciativas que partem de grupos autônomos. É o caso do Fora do Eixo, gestores culturais independentes que trabalham em prol do desenvolvimento de todas as linguagens artísticas. Existe no Brasil inteiro e dá um super apoio para quem tem muita vontade de colocar a cultura livre para rodar: www.foradoeixo.org.br.
Conheça outros projetos: se inspire
Na rede, é possível conhecer e contatar inúmeros projetos: Fotografia para crianças carentes (MG)
Laboratório fotográfico itinerante que trabalha com os conceitos da câmera invertida, usando a técnica “pin-hole”, levando a fotografia para bairros carentes de todo o Brasil; www.cidadeinvertida.com.br
Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil (RPCFB), que inclusive acabou de abrir inscrição para programa de capacitação em projetos culturais. Vale a pena dar uma conferida em todo o site!
Há vários documentários sobre o assunto, que podem ajudar no amadurecimento das idéias:
Nascidos em Bordéis (2004) é um documentário produzido em Calcutá, Índia. O filme descreve a trajetória de uma fotógrafa americana, que passa a ensinar fotografia para crianças filhas de prostitutas. As crianças, vivendo em condições de extrema pobreza, sem acesso à escola, muitas vezes partiam para a mesma profissão das mães. O resultado do filme: Oscar. O resultado do projeto: crianças na escola. Vale muito à pena conferir…
Só amor (2001) é um documentário sobre o mestre Henri Cartier-Bresson. O doc tem a intenção de falar sobre vida, obra e projetos desse grande nome do fotojornalismo. Mas a primeira parte do filme que me interessa aqui: os 20 primeiros minutos do documentário falam sobre o projeto social que o fotógrafo desenvolveu com presidiários de Fleury-Merógis, França.
Lixo Extraordinário (2010) é um doc sobre vida e obra do artista plástico brasileiro Vik Muniz. Reconhecido internacionalmente, Vik se propõe a sair dos EUA para desenvolver um projeto com catadores do maior aterro sanitário da América Latina, localizado no Jardim Gramacho, RJ. Para quem conhece o trabalho de Vik, sabe que o mesmo trabalha reproduzindo e fotografando imagens feitas com lixo. Inserindo o catador nessa temática, transgride as barreiras geográficas e leva o trabalho realizado para ser vendido em leilões internacionais. Todo o dinheiro levantado com a venda das obras foi destinado à associação dos catadores. “Porque 99 não é 100”.
Seja um voluntário
Projetos sociais nem sempre contam com financiamento. Se você desenvolve projetos já pensando nisso, esqueça. Na maioria dos casos, os projetos são direcionados a um público de baixa renda, que dependem essencialmente de voluntários. E não vejo isso como um problema, mas como uma maneira excelente de começar. É claro que ser voluntário envolve muito interesse, responsabilidade, comprometimento. Mas ser voluntário também implica em uma experimentação: podemos trabalhar de uma maneira mais livre, mais aberta, experimentando novas formas de passar o conhecimento. O voluntariado também permite também o desenvolvimento de técnicas, de material, didática. Além de tudo isso, a recompensa vem de outras formas: um sorriso, um olhar sincero de agradecimento, uma flor. Saber das espécies de pássaros que povoam a cidade, do nome de árvores e flores, dos anseios da idade quando se perde alguém querido. Essa troca de experiência não tem preço…
Projetos que abrem portas
Penso no poder do bem. Fazer o bem é fazer o bem em casa, no trânsito, no supermercado. Antes de mudar a vida de quem vive tão longe, mude primeiro a sua, e a das pessoas que vivem com você todos os dias. Projetos desenvolvidos com carinho abrem muitas, muitas portas. Acredite!