
Richard Corman e a Madonna pré-fama
Prestes a ‘estourar’ nas paradas, Madonna foi clicada por Richard Corman e sua então câmera instantânea
Em junho de 1983 Madonna era uma ambiciosa de 24 anos aguentando críticas pesadas nas listas dos clubes. Quando o fotógrafo Richard Corman conheceu a jovem cantora, ela serviu-lhe chiclete e espresso numa bandeja prateada em seu mais que boêmio prédio sem elevador na parte leste da Fourth Street. Foi como se, ele diz, “literalmente logo antes dela dar uma saída e disparar pra estratosfera.” No mês seguinte após eles produzirem algumas polaroids casuais de casting, ela lançou seu álbum de estreia, Madonna, que rendeu três sucessos nos top 10 (‘Holiday’, ‘Lucky star’ e ‘Borderline’). Um ano depois, contorcia-se ao redor de um bolo de casamento no Video Music Awards da MTV em sua performance de ‘Like a virgin’ que marcou sua carreira. Mas quando Corman tirou essas fotos despojadas e deslumbrantes com Polaroid SX-70, ela ainda era a namorada do DJ Jellybean Benitez, a boa dançarina da Funhouse e da Danceteria, e a desembaraçada que pagou o aluguel sendo garçonete e posando nua para estudantes de arte. Como ela escreveu na época: “Eu sentia-me como um guerreiro mergulhando firme à minha maneira na multidão para sobreviver.”
Richard Corman era bem conectado no início dos anos 80. Ele foi assistente de Avedon, e sua mãe Cis era diretor de casting que trabalhou em filmes como Raging bull e The Deer Hunter (‘Touro indomável’ e ‘O franco atirador’, respectivamente). Quando Corman fotografou Madonna, ele também andava tirando fotos de Keith Haring no Soho e de Jean-Michel Basquiat em seu estúdio na Great Jones Street. Mas nada o preparou para a jovem mulher que o olhou como se “estivesse para dominar o mundo.” Após 30 anos definhando num depósito, as 66 polaroids finalmente ganharão seu tributo em livro e exposição.
Abaixo uma entrevista de Corman a Rory Satran do blog i-D (parte da Vice), sobre estes cliques instantâneos de Madonna e mais de sua carreira:
Como essas polaroids aconteceram?
Essas são imagens que cliquei em 1983. O que as faz tão charmosas e especiais para mim atualmente é a conexão com minha mãe. Ela me apresentou à Madonna na primavera de 83, quando estava fazendo o casting de um filme chamado “A última tentação de Cristo” com Martin Scorsese. Eles fizeram uma audição de Madonna para Virgem Maria. Como se pode ver, ela nunca conseguiu a participação, mas ela e eu nos conhecemos na época em que eu estava trabalhando na Avedon Studios. Eu andava constantemente reparando em pessoas interessantes para fotografar. Nunca conheci qualquer pessoa realmente como ela. Ela era original.
O ensaio com Polaroid veio um pouco mais tarde, quando minha mãe estava desenvolvendo um musical de nicho chamado “Cindy Rella”. Madonna estava então no apartamento do irmão, e precisei enviar imagens [de casting] para a Warner Bros. assim que possível. Não tínhamos nada digital ou como iPhones na época, tínhamos Polaroids. Então cliquei cerca de 66 polaroids. Juntamos num livro com um roteiro para uma apreciação e o casting. Michael Jackson ou Prince faria o príncipe. Aretha Franklin estava para fazer a madrasta malvada. Pode-se perceber que o filme nunca foi feito e o roteiro com as 66 polaroids ficaram, penso eu, perdidos por 30 anos. Recentemente, quando eu estava passando por meu depósito, limpando-o até o último cantinho, fiquei boquiaberto por encontrar aquelas imagens apenas chocando ali. Em perfeitas condições.
Se fizéssemos aquelas fotos hoje em dia, estariam lá 30 pessoas naquele apartamento. Mas foi apenas eu e ela, foi tão simples. Ela era tão acessível, engraçada e sexy. Ela era tão legal e tinha tanto carisma. Daí começamos com algumas fotos onde ela estava limpando a casa como uma Cinderela, e então ela aprontando-se para o baile. Ela deu uma saída e creio que levou duas horas para encontrar esse vestido em alguma loja vintage. Na época ela era um tipo de fenômeno local.
Não sou necessariamente um fã da Madonna, mas sou certamente um fã de sua determinação, seu espírito e sua energia. As fotos parecem bem mais relevantes do que pareciam quando foram feitas lá atrás. Ela foi sempre relevante, claro, mas o jeito como ela estava vestida, seu cabelo, sua maquiagem… Tudo em seu estilo e seu jeito de ser eram simplesmente do século 21. Entre o jeans e os lábios vermelhos, as raízes obscuras. Tudo dela era nosso presente.
Então ela fez o próprio figurino, e sua maquiagem e cabelo?
Totalmente. Ela estava sempre no controle. Sabia exatamente a forma como queria parecer. Nessa tarde ela me conheceu, e a minha mãe, meu pai nesse local no Upper West Side onde todo ator da cidade de Nova York dava as caras. Ela andou lá e simplesmente parou o trânsito. Ninguém tinha o visual dela! Ela foi uma visionária na vida, e era com certeza 100% original.
E sua mãe, Cis Corman, era uma diretora de casting?
Sim, ela era uma diretora de casting e posteriormente tornou-se produtora na companhia de Barbra Streisand. O que faz isso realmente especial para mim é que ela está sofrendo terrivelmente com Alzheimer agora — ela está com 90. Isso é realmente uma homenagem a ela. Nada disso teria acontecido sem sua colaboração.
Quando você começou a tirar fotos?
Comecei a tirar fotos pouco depois de estar com Avedon em 83. Nunca havia estudado isso, eu estava preparado para ir pra graduação em psicologia. Tirei um ano de folga e a fotografia meio que caiu no meu colo, apenas porque eu necessitava de uma pausa, e então me apaixonei por ela. E dei um clique, e decidi que era ali que estava meu coração. A experiência com Avedon certamente mudou minha vida.
Como foi trabalhar com Avedon?
Mudança de vida na melhor maneira. Era você estar por perto de alguém de alguém que era simples e incrivelmente apaixonado, inteligente e com toda sua vida girando em torno de seu trabalho. Ele era brilhante, ele era generoso, interesseiro, mas investi um bocado de tempo viajando com ele. Um dos projetos nos quais trabalhei próximo a ele foi In the American West. Então eu investi dois verões com ele viajando pra lá. Foi simplesmente algo como uma reviravolta mental. Nós conversamos sobre fotografia e arte.
Como você acha que o trabalho de Avedon influenciou o seu?
A coisa mais importante no trabalho do Dick eram os olhos de seus modelos, e a habilidade de enxergar por trás desses olhos. Ele lhes permitiu contar suas próprias histórias. Para mim, as fotos mais significativas são as que vejo algo por trás dos olhos das pessoas. As que elas puderam contar sua própria história.
E daí qual a história de Madonna nessas fotos?
“Eu estarei no topo do mundo, vou dar as cartas ao mundo. Nada vai me parar, e vou atravessar qualquer um para chegar aonde estou indo.”, essa é definitivamente a linguagem. Era tão real e tão natural. Nada parecia pretensioso. Quando a encontrei pela primeira vez e fui a seu apartamento ela teve que me mostrar as escadarias, porque era um prédio cheio de bandidos. Eles a protegeram. Ela disse “Richard, você não pode entrar no prédio até que me avise que está aqui, e assim eu possa dizer aos caras do andar de baixo.” Ela era a Flautista de Hamelin na vizinhança, as pessoas iam no seu apartamento para ter pizza, irem pra cobertura para cantar e dançar. Ela abraçou isso, e a cidade era realmente dura naquela época.
por Rory Satran, via blog i-D (vice.com)